Quando uma Metonímia é quase um crime
Domingo passado eu tive uma pequena decepção ao descobrir que meu primo de 12 anos tem aula de Photoshop na escola em que estuda. Sério, onde que está a cabeça deste professor de informática que ensina edição de imagem para crianças com o maldito Adobe Photoshop?
Mas o problema não está no software em si, mas na forma como ele é apresentado. Aula de Photoshop? Não seria aula de edição de imagem?
Isso não é de hoje. Quando fiz meu primeiro curso de informática, antes mesmo de ter um computador, eu fiz um curso de WINDOWS-WORD-EXCEL-MSDOS. Na realidade, eu deveria ter feito um curso chamado SISTEMAS OPERACIONAIS-PROCESSADORES DE TEXTO-PLANÍLHAS ELETRÔNICAS. Sim, no plural.
É claro que isso não seria aplicável na época do meu curso, já que efetivamente só se tinha Windows e DOS, e o Linux estava limitado a servidores e universidades. Qualquer coisa que fosse chamada de "Linux para Desktop" seria um embrião comparado ao que temos hoje.
Focar em marcas, em vez da categoria do software, é bom para as empresas destes produtos, mas é ruim para o usuário, especialmente para crianças. Elas vão crescer e vão continuar com aquela marca martelada na cabeça, que vai virar o "bom bril" da sua categoria. No fim, vamos ter usuários extremamente limitados, que não conseguem lidar com algo minimamente diferente do que estão habituados.
Não estou dizendo que o curso para crianças deveria ter mais de um Sistema Operacional, ou que elas devam ser proeficientes em todos os Processadores de Texto do mercado. Mas o curso não deveria ter o nome do software mais popular do mercado (ainda mais quando este aplicativo tem uma licensa caríssima), e dedicar um capítulo a alternativas sempre é saudável, mesmo que elas não tenham aula prática, pelo menos o aluno terá a consciência de que ele tem opções.
Também acho que, em especial neste caso em particular, deveria ser utilizado softwares alternativos e que fossem gratuitos. Para que usar um Photoshop, se tudo pode ser feito com um Paint.NET? Bitolar os alunos para utilizarem uma aplicação pesadíssima e que tem um preço de licença de mais de R$ 2.000,00 só vai fazer com que eles sejam mais coniventes com a pirataria, além de não aprenderem a valorizar um software financeiramente falando.
E pirataria, meus amigos, pode ter certeza que está relacionada, muitas vezes, com crimes mais graves, como o tráfico de drogas. Da janela da minha casa eu vi recentemente um vendedor de DVDs piratas entregar um bagulho para um rapaz, e recebendo dinheiro em troca. Com certeza não era um DVD. Não foi a primeira vez que eu vi este vendedor fazendo isso, e também não vai ser a última.
Sim, é verdade. Qualquer tipo de negócio pode ser utilizado para venda de drogas. Mas um negócio como vendas de DVDs piratas é muito mais adequado para este fim. É algo que não responde a ninguém, não gera impostos, não assina carteira nem paga INSS, e é totalmente aceito ou pelo menos suportado pela sociedade em geral. Até policiais são clientes de pirateiros.
Uma busca no Google sobre o tema, mostra que muitas das apreensões de drogas e armas da polícia também tem apreensões de mídias piratas e vice-versa. Uma pesquisa por "pirataria e drogas" revela muitos artigos sobre o assunto.
Ora, no filme Tropa de Elite 2 é mostrado como as milicias vendiam serviços de tv a cabo no morro para financiar outras atividades criminosas. E não existe diferenças entre isso e a venda de DVDs piratas.
Não estou generalizando. Não estou dizendo que qualquer vendedor de rua de DVDs tem envolvimento com o tráfico ou outras atividades escusas, ok? Mas que este texto sirva de reflexão: Comecei falando de educação, passando por pirataria de software e filmes, e terminei falando em tráfico de drogas. Parecem assuntos distintos, mas que muitas vezes estão relacionados, infelizmente.
Às vezes, ser conivente com pequenos crimes faz com que crime maiores e mais danosos se tornem mais fáceis.
