O prazer culposo em assistir Primeval
Quem diria, aqui estou eu escrevendo mais um artigo, desta vez marcando o retorno dos seriados televisivos a este humilde, porém limpinho, blog.
E nesta volta triunfante falarei de uma série que se tornou um verdadeiro prazer culposo (ou guilty pleasure) para mim: Primeval. Este artigo pode conter alguns spoilers, mas dada a seriedade do tema da série, eu creio que não tem nada com que se preocupar.
“Prazer Culposo” é uma definição para coisas que você sabe que é vergonhoso, mas mesmo assim você sente um prazer secreto em realizar. Ou no caso da série, em assistir.
Primeval é uma série inglesa que mostra uma uma série de portais no tempo surgindo misteriosamente, criando pontes entre o passado e o presente e eventualmente entre o presente e o futuro. Cabe a esta equipe, com a ajuda do governo britânico, lidar com estes portais e também com as criaturas que -eventualmente- cruzam os portais em todos os episódios.
Para criar as criaturas, a série conta com a equipe técnica e de animadores da série Caminhando com Dinossauros, do Discovery Channel. Isso garante uma animação técnica realista e uma computação gráfica competente em termos de televisão e nada mais. As criaturas parecem ótimas a maior parte do tempo, exceto quando estão interagindo com algo real.
Que conveniente!
Os maiores problemas da série estão em seu roteiro, pois Primeval abusa demais das Leis da Conveniência Universal. Eu vou citar um exemplo para não me prolongar demais, e nem será o fato de que todos os portais parecem surgir sempre na Inglaterra e nos arredores de onde a equipe atua. Isso se deve a restrições orçamentárias e é perfeitamente compreensível.
Sempre que um novo portal é aberto, existe 90% de chance de sair de dentro dele um animal predador, pronto para transformar o ser humano em um petisco salgadinho e crocante. Já saíram animais herbívoros que deram um trabalhão, mas na maioria das vezes, somos contemplados com um carnívoro. Por mera conveniência de roteiro.
Se eu cavasse um buraco no chão da savana africana e voltasse após 2 dias, eu apostaria que dentro dele estaria uma zebra ou um gnu. E dificilmente, um leão ou uma hiena. Porque a massa biológica de animais herbívoros tem que ser muito maior que a de carnívoros. São necessários 100 gnus para sustentar 1 leão. Mas em Primeval, parece que os predadores já estão esperando que os portais apareçam para poderem saltar dentro deles e causarem o terror em nossa época.
Além disso, o Deus Ex Machina impera forte também nos personagens, com situações sendo resolvidas por soluções tiradas literalmente do nada. Deve ser muito fácil ser roteirista da série.
Por fim, devo expressar minha descrença no fato de que a equipe de Primeval consegue manter os eventos da série ocultos do público em geral, mesmo quando um portal abre em uma rodovia engarrafada e um mamute venezuelano salta de dentro dele. Sério pessoal: nos dias de hoje, em que cada celular tem uma câmera? No Reino Unido, quando já havia gente reclamando do número de câmeras nas ruas em 1985? Aham, senta lá, Cláudia.
Horra Marcus, você só fala mal! Esta série deve ser muito pestilenta!
Primeval pode ser uma série de roteiro simplista, às vezes beirando o infantil, mas pelo menos é honesta em relação a isso. Não apresenta nenhum grande mistério, não tenta se vender como a última coca-cola do deserto. Então você assiste sem expectativa nenhuma, apenas para passar o tempo, eventualmente você acaba se apegando à série e seus personagens.
Algumas das coisas que me chamaram a atenção positivamente:
Personagens
Falando em personagens, acho que este é o time de atores mais carismáticos que se pode ter em uma série. Ainda são um bando de esteriótipos safados de série de ficção, mas com poucos episódios eles conseguem te conquistar. Ter atores carismáticos pode não garantir uma série, mas ajuda bastante a criar vínculo com o público. Por exemplo, o protagonista da série Flash Forward tem o mesmo carisma de um pedaço de madeira infestado por cupins, e eu não via a hora daquele cara morrer.
Humor
Outra coisa que eu acho divertidíssima na série é o humor, que oscila entre o sacarmo e a ironia. Tem um personagem na série, James Lester, que representa o típico funcionário burocrático governamental, é um dos personagens principais periféricos, e não tem tanto tempo em tela quanto os demais, mas é um dos meus personagens preferidos, justamente pelos seus diálogos com os outros personagens.
E sabe o que é pior? Não tenho o costume de assistir séries inglesas, é capaz desta característica ser comum entre elas e acabar que Primeval não ter um humor tão destacável assim.
Infância
Devo dizer que a série me trouxe de volta alguns sentimentos infantes, do longínquo ano de 1993, quando me deslumbrei em um cinema com o filme Jurassic Park. Este filme causou um impacto tão grande em mim na época, que eu passei vários anos com pensando em formar em paleontologia. Acho que ver dinossauros e outros animais extintos interagindo porcamente com seres humanos em Primeval ativou um poderoso sentimento saudosista em mim.
Não só do passado vive a série. Também vemos criaturas do futuro, como um predador que evoluiu dos morcegos, livremente baseado nas especulações evolutivas do Livro After Man: A Zoology of the Future, de Dougal Dixon. Particularmente acho os episódios que lidam com as criaturas do futuro mais interessantes, pois os designers se soltam mais e acabam criando seres diferentes daqueles que estamos habituados.
Primeval também respondeu minha mui científica dúvida de quem ganharia batalha envolvendo um morcego predador do futuro e um arcossauro superpredador. É uma questão muito importante, capaz de definir o caráter de um ser humano...

…Da mesma forma que debater quem sairia vitorioso em uma luta envolvendo o Super-Homem e o Batman.
…
Realidade
Por fim, você pode achar que ligações com a realidade histórica podem atrapalhar o desenvolvimento da trama de Primeval, causando paradoxos e outros detalhes difíceis de explicar. Saiba que a ligação entre ambos vai se tornando cada vez mais tênue no decorrer dos episódios. E lá na terceira temporada ambos se divorciam completamente.

Uma pena a guarda dos filhos ter ficado com a realidade. Todos sabemos como ela pode ser uma mãe severa, às vezes.
Personagens
Fechando o artigo, aqui vai a lista de personagens que compõe o staff do seriado:
Professor Nick Cutter (Douglas Henshall): Professor de um curso qualquer em uma universidade que não lembro o nome nem por uma surra, Nick é a principal cabeça pensante a respeito das Anomalias. Sua principal característica, além das olheiras monumentais, é estar certo sobre tudo e acertar qualquer palpite de primeira. É obcecado com o desaparecimento da esposa, Helen Cutter, a 8 anos atrás.
Stephen Hart (James Murray): Assistente de laboratório e mão direita do professor Cutter. Também foi aluno de Helen Cutter. Ele é o “homem da ação” do seriado, e na maioria das vezes é responsável pela segurança do grupo. Estranhamente é nos dito que Stephen trabalhou como ambientalista, o que, com esta cara de metrossexual, acho muito difícil. Como ele iria sobreviver meses na selva sem seu delineador de sobrancelha?
Helen Cutter (Juliet Aubrey): Como expliquei antes, ela foi esposa do prof. No-sleep. Aparentemente ambos estavam tendo problemas no relacionamento, pois Helen insistia muito em umas teorias controversas sobre portais no tempo. Você sabe, essas coisas que só as mulheres reparam. Não pode ser considerado spoiler dizer que Helen sumiu atravessando uma das anomalias temporais.
Claudia Brown/Jenny Miller (Lucy Brown): Agente de campo do governo britânico para lidar com Anomalias. Inicialmente tentou impedir Nick Cutter e cambada de se envolverem com os acontecimentos. Obviamente não deu certo e ela acabou se tornando uma espécie de coordenadora do grupo. Eventualmente sua função, profissão, personalidade e até nome próprio mudam, só para nos deixar cientes que “time traveling is serious business”.
Abby Maitland (Hannah Spearritt): Zoologista especializada répteis de um zoológico qualquer aí, e que acaba se envolvendo com as anomalias e as criaturas que saem de dentro delas. Além disso, a presença dela é um golpe forte contra qualquer intenção de ser realista. Não entendam mal, eu posso aceitar dinossauros cruzando portais no tempo, mas é muito difícil acreditar que uma mulher como ela escolheu como profissão lidar com cocô de lagartixa. E como se isso não fosse suficiente, ela ainda se envolve romanticamente com...
Connor Temple (Andrew Lee Potts): Nerd xtreme roots do time, e também o personagem mais principal dentre os principais. Foi o primeiro a notar a possibilidade de um réptil predador de 2 toneladas existir em uma floresta localizada no perímetro de uma cidade de 8 milhões de habitantes. Tem um jeitinho meio afetado, intensificado pelo hábito de usar lencinho no pescoço. Tenho certeza que isso deve ter feito algum sucesso 40 anos atrás, mas hoje seria uma perfeita declaração de “sou virgem”. Eventualmente ele perde esse jeitinho dele. Nada como passar um ano no cretáceo para amadurecer um homem. Connor é o sucessor espiritual do professor Cutter e também é especialista em construir máquinas complicadas que funcionam como deveriam quase sempre na primeira tentativa.
James Lester (Ben Miller): Burocrata do governo que administra a operação de contensão das anomalias. É de longe o meu personagem preferido, só pelas pelas tiradas sarcásticas que ele solta quando interage com outras pessoas. Ele não é um personagem de campo, e não costuma aparecer muito nos episódios.
Bom pessoal, chega ao fim este longo e inútil artigo. Recomendo o seriado Primeval para todos que tem algum tempo livre e curtem uma aventura sem muitas pretensões de grandeza. A série está na quinta temporada, e possui temporadas curtinhas, variando entre 7 e 10 episódios, em média.